Centenário JB

Homilia no Centenário do Jornal da Beira (1921-2021)

Reunimo-nos em comunhão com toda a Igreja Diocesana para celebrar os cem anos do nascimento do Jornal da Beira, fundado em 9 de janeiro de 1921. Em tempos difíceis, como os que hoje vivemos, a sociedade e a Igreja tinham saído do contexto da primeira guerra mundial e de uma pandemia.

No momento presente diante da pandemia do Covid-19, que nós estamos a experimentar, obriga-nos desta forma restrita a cumprir as regras sanitárias, para fazermos a comemoração deste evento tão significativo.

Tenho a certeza, de que a glória e louvor, que queremos dar a Deus nesta Eucaristia, como ouvimos no salmo responsorial, ficará sempre na história a marcar a nossa presença viva de louvor e de festa. Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor meu Deus e meu Rei. Esta é uma atitude verdadeira na promoção dos Meios de Comunicação Social, especialmente do Jornal da Beira, que como boa imprensa ilumina nesta diocese, nesta cidade, nesta região, no nosso país e para o mundo.

Dou as minhas felicitações a todos!

Que todos nos sintamos envolvidos neste projeto. Gostaria de dizer que as leituras que agora foram proclamadas estão no contexto da semana, pós- Epifania. Epifania quer dizer manifestação. Também o nosso Jornal em cada dia, em cada semana, é manifestação através de boas notícias, boas novas, também algumas menos boas, mas sempre de informação e formação, que chegam ao coração de todos.

Quero partilhar as palavras de São Marcos, pronunciadas antes de Jesus se elevar aos céus. Jesus disse aos seus discípulos: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura“ (Mc. 16,15 ).

À luz destas palavras é preciso partir de Cristo Evangelizador, para sermos uma Igreja Evangelizadora. “Quem acreditar e for batizado será salvo” (Mt 16,16). É preciso passar da Palavra, para a escrita, da escrita para a imagem e da imagem para o digital.

A pregação de Jesus tranquiliza-nos e dá-nos paz: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos, nunca vos abandonarei. Eu vou para junto do Pai para vos enviar o Paráclito, o Consolador, o Espírito da Verdade, que vos conduzirá à verdade total” (cf Jo14,15-19,26). Junto do Pai Jesus Cristo, intercede por nós e ilumina-nos com a sua Palavra e nos faz dóceis aos ensinamentos da Igreja. “As vossas palavras Senhor são espírito e vida”. Antes de mais, o múnus de ensinar, convida-nos a anunciar, ensina-nos a escutar a Palavra de Deus e a fazermos com ela o verdadeiro discernimento, enquanto caminho para buscar a verdade da vossa Palavra.

Os homens iluminados pela Palavra de Deus e pela sua sabedoria, assim como um jornalista, ou um profissional dos Meios de Comunicação Social, que anunciam e comunicam através das suas palavras as notícias, os acontecimentos com isenção, transparência, rigor e fidelidade à verdade, factos narrados, que se fazem sempre notícia falada ou escrita como uma boa nova.

A notícia deve ser sempre uma manifestação da verdade, uma autêntica epifania reveladora da luz de Deus. Um acontecimento eclesial, marcante na história e na memória da nossa Diocese, da nossa cidade, de uma região e de um povo peregrino que escuta as Palavras do Senhor. No nosso século tão marcado pela influência dos Meios de Comunicação Social, o nosso jornal, assim como os outros jornais, fizeram sempre o primeiro anúncio da palavra através da escrita, mesmo em momentos de maiores dificuldades.

A

Igreja proclama a verdade sobre os telhados, dizia o Papa Paulo VI na Evangelium Nuntiandi (cf. EN 45, 1975). “O empenho em anunciar o Evangelho aos homens do nosso tempo animados pela esperança, mas ao mesmo tempo torturados muitas vezes pelo medo e pela angústia, é sem dúvida alguma um serviço prestado à comunidade dos cristãos, bem como a toda a humanidade” (EN 1).

Ele fazia-nos um enorme desafio, de como devíamos evangelizar a cultura e o mundo da modernidade e pós-modernidade. A evangelização da cultura e das culturas através da boa imprensa foi sempre um convite a “anunciar o Evangelho a todos, a revestirmo-nos do Homem novo e a fazer o caminho da reconciliação com Deus e com os homens.

A função dos Meios de Comunicação Social, dizia o Concílio Vaticano II, “podem atingir e mover não só cada um dos homens, mas também as multidões e toda a sociedade humana como a imprensa (…) e outros que, por isso mesmo, podem chamar-se, com toda a razão, meios de comunicação social” (I.M. 1).

O documento conciliar convida todos aqueles, que dirigem estes meios, “a que se esforcem por os utilizar a bem da sociedade humana, cuja sorte depende cada dia mais do uso reto deles” (I.M. 24).

São João, lembrava-nos na sua primeira carta as seguintes palavras: “Caríssimos: Esta é a confiança que temos em Deus: Se lhe pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, Ele escuta-nos. É sabendo que Ele nos escuta em tudo o que Lhe pedirmos, que sabemos também que para alcançarmos o que lhe tivermos pedido” ( cf.1 Jo 5,14-21), é preciso ter fé, esperança e caridade.

São João dizia que “toda a iniquidade é pecado, mas nem todo o pecado leva à morte”. São muitos os nossos pecados e deles devemos pedir perdão a Deus e convertermo-nos ao verdadeiro amor. Também nós muitas vezes, na utilização e serviço destes Meios de Comunicação Social e do seu uso temos as nossas negligências, algumas faltas e também omissões.

Ao utilizarmos bem os Meios de Comunicação Social, sabemos que somos filhos de Deus, o Filho de Deus veio ao mundo, e deu-nos a inteligência para conhecermos a verdade, o Verdadeiro Cristo, a vida eterna.

Meus filhos guardai-vos dos falsos deuses, a falta de amor à verdade, à isenção, à mentira são um obstáculo para alcançar a verdade plena, que é a verdadeira fonte de libertação humana.

O Evangelho fala-nos do testemunho de João Batista a batizar no rio Jordão, mas não consente este rejeita, que seja confundido com o Messias, o Salvador do mundo. A comunicação deve ser sempre transparente e verdadeira. Por isso João dizia: “Eu não sou o Messias, mas aquele que foi enviado à sua frente para preparar o seu caminho”. A minha alegria, agora é completa, porque eu posso estar com o Esposo. “Ele deve crescer e eu diminuir”.

Quero dar graças a Deus pelo dom do centenário do Jornal da Beira, que hoje celebramos. Ele é bem um sinal visível daquilo, que são os valores da pessoa humana, capazes de construir e projetar as suas obras para o bem que realiza.

Por isso, este momento é de louvor e de ação de graças. Grandes e maravilhosas são as vossas obras Senhor. A vida centenária do nosso “Jornal da Beira” é uma maravilha, uma graça e um sinal do grande amor, que Deus nos tem e encontra reflexo naquilo que são as suas obras.

Celebrar o centenário do “Jornal da Beira” é um dom maravilhoso de Deus, que devemos agradecer, viver e construir na memória de uma história criativa, escrita com muitas palavras boas, com a notícia de muitos acontecimentos, a recordação de eventos e de festas, que se tornam a maior riqueza de uma Igreja, de uma sociedade, que na profecia de um mundo novo, sintetiza um conjunto de factos escritos que se tornaram a riqueza de muitas vidas, de muitas histórias contadas deste povo, desta Igreja particular, que na senda da mensagem da esperança, se tornou uma autêntica epifania de bem, de textos escritos que gravaram no papel e no tempo uma boa nova para se tornarem aquilo a que chamamos notícia e comunicação escrita como é o Jornal da Beira.

Ao regressar às origens e ao beber da fonte da comunicação a que o Jornal da Beira deu origem, a letras gravadas em chumbo e guardadas em papel, ou na era das novas tecnologias digitalizadas onde podemos ver, podemos ler, reler, contemplar, meditar e guardar na mente e no coração, a mensagem do primeiro número do nosso Jornal da Beira, que na sessão solene oferecestes a cada um de nós. Parabéns!

Os primeiros passos para a fundação do jornal eram expressos pelo seu primeiro Diretor do seguinte modo: “Depois de nos termos assegurado do concurso de alguns amigos dedicados, sem cuja cooperação não poderíamos abalançar-nos a esta obra, iniciamos hoje a publicação do Jornal da Beira. Como já previamente anunciado, este jornal vem substituir a Defesa Social, cuja publicação damos por terminada, e ainda o antigo Correio da Beira, que havíamos pensado restaurar. Entendemos, porém, que era preferível dar ao nosso jornal uma feição inteiramente nova, melhorando-o literária e materialmente. Não se consegue realizar uma tentativa desta natureza em poucos dias, e por isso o Jornal da Beira não vai ainda com todos os melhoramentos que temos projetado; mas ao menos na parte literária, sai já muito melhor ordenado e muito mais completo” (cf. Jornal da Beira, 1921, Ano I, nº1).

Quando o horizonte da responsabilidade humana e social, tem em mente o princípio do desenvolvimento integral da pessoa humana, o bem comum da sociedade deve ser realizado através desse meio de comunicação social, cumprindo verdadeiramente a sua vocação e a sua missão. Torna-se um novo areópago, onde é possível anunciar o Evangelho, como boa nova e comunicar pela escrita, na diversidade do seu género o conhecimento que o Jornal deseja exercitar no leitor para este tomar conhecimento da Doutrina da Igreja e da sua Doutrina Social.

O nascimento do “Jornal da Beira” foi um grande momento eclesial para a Diocese de Viseu, representada pelo desejo e zelo do seu Bispo D. António Alves Ferreira, e o empenho apostólico do Reverendo Cónego José d’ Almeida Correia que fez do jornal “A Folha”, a pedra basilar, sobre a qual se edificaria o novo meio de comunicação social, que passaria a ser um Jornal Católico para todos. Nasce assim, o “Jornal da Beira”, com o lema: “POR DEUS E PELA PÁTRIA”, para numa época tão conturbada com tantas correntes de pensamento filosófico e político, depois da primeira guerra mundial e de uma pandemia, pudesse ser um sinal novo, rumo ao desejo traçado pelos fundadores para que o novo Jornal tivesse como meta alcançar os seus objetivos.

Daí darem uma informação aos futuros leitores num ato criador, e com um carácter inovador dizendo nestes temos: “Colaboradores especializados, de reconhecida competência, professores das escolas superiores e secundárias, que pela imprensa católica têm o apreço que ela deve merecer, garantindo-nos a sua colaboração periódica, mais ou menos regular” (cf. JB, Ano I, nº 1).

Medidas, que tomadas há cem anos, hoje nos parecem muito ousadas e inovadoras, mas para os tempos difíceis de então, foram a esteia sólida de base cristã, cuja identidade queremos preservar no nosso Jornal. Com convicções profundas daquilo que seria o Jornal da Beira, que acabava de nascer, como um projeto de futuro promissor, que saía para a praça pública da nossa urbe viseense.

Na celebração do seu primeiro centenário, apraz-me de novo lembrar o seguinte: “Desta sorte o nosso jornal, além da sua função doutrinária, de propaganda abertamente católica, terá um carácter acentuadamente regionalista, será verdadeiramente o Jornal da Beira” (cf. JB, Ano I, nº1).

Estavam dados os princípios passos e a orientação geral que iria fazer parte do presente e do futuro deste meio de comunicação social, no âmbito da imprensa escrita, ao qual não é estranho o nosso Jornal da Beira. “Jornal francamente católico e nacionalista, o Jornal da Beira, juntará a defesa religiosa a defesa dos grandes interesses nacionais; nenhuma questão de interesse local ou nacional lhe será estranha; sobre toda elas procurará fazer luz…” (cf.  JB, Ano I, nº1, domingo 9 de janeiro de 1921).

Como hoje, também então se viviam tempos difíceis e no seguimento dos verdadeiros princípios, quer de questões de ordem sanitária, económica e social, sobre os quais se propunha ao tempo o Jornal dispensar um especial cuidado.

Dizia então o Diretor: “Começa o novo jornal a publicar-se num ano que se nos mostra tremendo de dificuldades. Ninguém pode calcular as complicações que irão surgir na nossa vida económico-política. Quaisquer que elas sejam, e bem graves devem ser, não queremos para nós a atitude de meros espectadores nem de vencidos.” (cf. Jornal da Beira, em 1921: Ano I, nº 1, domingo 9 de janeiro de 1921, “0 NOSSO PROGRAMA”, José d`Almeida Correia).

Pela descrição, com que escreveu o seu Diretor naquele dia e tempo, como hoje também, as dificuldades eram enormes e vinham de várias frentes. A pandemia não era só sanitária, económica e social, mas também humana, com várias correntes de pensamento e de agir político. Uma experiência que não se distancia muito de tudo aquilo que hoje estamos a viver e a sentir com a pandemia Covid-19. Se há cem anos, no meio de tantas dificuldades, eles conseguiram ultrapassar a crise, também nós hoje, quer na Igreja, quer na sociedade atual, acreditamos que com ajuda de Deus e o esforço de todos havemos de vencer.

Um Semanário como o “Jornal da Beira” e tantos outros também centenários, são manifestação de uma Palavra do Verbo, feita letra escrita, que vive na alma de quem a lê ou a faz ler, ou dele fala para alguém a ler ou a reler. É preciso guardar a memória e dar esperança ao presente, para construir um futuro com prudência e com sabedoria.

O nosso atual Papa Francisco, quando ainda era o Cardeal Jorge Mário Bergoglio, nas congregações gerais que precedem o conclave para a eleição do novo Papa, falando durante três minutos e meio a pensar no perfil do próximo Papa prefigurava: “um homem que, da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si mesma e a aproximar-se das periferias. Não apenas as periferias geográficas, mas também as existenciais: as do mistério do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e as da indiferença religiosa, as do pensamento, de todas as misérias” (Francisco, Em Viagem, Lampedusa, porta de entrada para as feridas do mundo, p.9). Não pensava Jorge Bergoglio, que viria a ser eleito o futuro Papa. Que seja também este um sinal profético para o nosso Jornal da Beira ter um futuro feliz, promissor e continuador de um projeto renovador de excelência.

Que o “Jornal da Beira”, seja sempre um farol e uma bússola na vida da nossa Igreja Diocesana, da cidade de Viseu, da região e do tecido do mundo novo onde ele chegar. Tornando-se uma luz de referência para a mente humana nos dê sempre uma orientação segura, para conduzir o coração humano pelos caminhos do desenvolvimento da paz e do bem.

Que Deus abençoe o nosso Jornal, a Bem-Aventurada Virgem Maria, a Estrela que orienta o mundo de hoje, oriente também os seus responsáveis e funcionários e São José, seja sempre o patrono que o protege. Ámen! Mãos à obra! Queremos vivo o Jornal da Beira! Que Deus abençoe o Jornal da Beira. Obrigado pela vossa presença!

Viseu, Centenário do Jornal da Beira, 9 de janeiro de 2021
 † António Luciano dos Santos Costa, Bispo de Viseu

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