Centenário JB

Igreja da Misericórdia e Catedral receberam comemorações do centenário do Jornal da Beira

CÂMARA DE VISEU ENTREGOU MEDALHA DE OURO

“Este é um dia de futuro”. A mesma confiança com que há 100 anos uma equipa liderada pelo então diretor, o Cónego José d’Almeida Correia, lançava o semanário regionalista da Diocese de Viseu, foi transmitida pelo atual diretor da Fundação Jornal da Beira, o Padre Luís Miguel da Costa, na cerimónia comemorativa dos 100 anos do jornal. A sessão decorreu no sábado, 9 de janeiro, na Igreja da Misericórdia, à qual se seguiu uma Missa na Catedral, presidida pelo Bispo da Diocese. 

Tal como hoje, o Jornal da Beira nasceu no meio de uma pandemia chamada ‘pneumónica’ seguida da mortal tuberculose. “Que certeira e triste cronologia esta” salientou o diretor da Fundação. Num discurso partilhado entre o passado, o presente e o futuro, o responsável mostrou que a história por vezes se repete, mas a estratégia local e global nunca foi a “inércia”, mas sempre enfrentar as crises. E, se há 100 anos, enquanto “no alto do Caramulo, se criou a estância senatorial para fazer face à pandemia da Tuberculose”, o Jornal da Beira nascia “para fazer face ao dever de informar bem”.

Cem anos depois, o Padre Luís Miguel da Costa deixou claro na cerimónia comemorativa a importância de, no futuro, o projeto não cair na tentação de se juntar a um tempo em que “os pasquins proliferam”, mas manter-se fiel ao seu estatuto editorial “sempre inspirado e fundamentado no Evangelho” com o dever de “informar e formar, com a única forma da verdade e do bem”.

“Nestes tempos que são os nossos – paradoxalmente – os pasquins proliferam. Não só nas chamadas redes sociais, mas também nas televisões, rádios, jornais, revistas e outros… O pasquim é sempre refém de tudo o que possa ser mais soez, refém de verborreias irrefletidas, mas também, – e é trágico – de interesses e poderes que, pela força do poder da informação e da comunicação, manipulam consciências, conhecimentos, verdades e vontades”, afirmou o responsável.

Também o diretor do Jornal da Beira, o Padre Nuno Azevedo, reforçou que o semanário tem acompanhado o evoluir dos tempos, mas sempre a trabalhar no sentido de manter a sua linha editorial de 1921, sendo um jornal de inspiração cristã, mas também de carater regionalista informando os seus leitores do que acontece na região de Viseu (há 100 anos apelidada de Beira Alta).

Num olhar atento ao futuro e ao assumir tempos difíceis que se vivem atualmente na imprensa escrita, o Padre Nuno Azevedo, foi à história para recordar que sempre se fez muito “com os poucos meios possíveis” e hoje “saibamos fazer frente às dificuldades” que os leitores do Jornal da Beira vão continuar a ter o seu jornal como “a voz da Diocese de Viseu” seja em papel, seja nas novas plataformas digitais.

A cerimónia comemorativa dos 100 anos do Jornal da Beira teve o seu ponto alto com a entrega da medalha de ouro do Município de Viseu, pelas mãos do presidente da Câmara, António Almeida Henriques.

O autarca reforçou a ironia da história pelo facto de o jornal ter arrancado no pós 1ª Guerra Mundial em plena crise pandémica da pneumónica e hoje, cem anos depois, a situação ser igualmente “complexa”. Avançou um pouco no tempo, para citar um texto de Armando Xavier Fonseca, publicado no Jornal da Beira em 1946 a relatar que a aposta de Viseu nos jardins e nas flores estava a ter uma “importância decisiva no desenvolvimento do concelho”, e assim justificar a decisão do seu executivo de resgatar este ano o grande slogan de ‘Viseu Cidade Jardim’. Com estas memórias, António Almeida Henriques enfatizou que “o Jornal da Beira é um valioso património” para a história de Viseu, tendo sabido “dar passos que foram servindo a comunidade” ao longo dos anos como foi a mais recente aposta do online.

O presidente da Câmara sublinhou que a entrega da medalha de ouro é um “valor simbólico” para “saldar uma dívida” que o município tem para com o projeto editorial Jornal da Beira.

Resiliência, foi a expressão mais salientada pelo Bispo da Diocese, D. António Luciano, ao lembrar os responsáveis e colaboradores que o segredo dos projetos editoriais é de que “podem sempre melhorar”, vendo o futuro como “um desafio que nos chama a um novo compromisso de uma nova evangelização”. 

Emília Amaral

 

100 ANOS DE JORNAL DA BEIRA

 

Excelências,

Saúdo, com amizade, gratidão e reconhecimento, todos os presentes. Agradeço muitíssimo a vossa presença, aqui e agora.

Este é um dia memorável, este é um dia de festa. Este é um dia de futuro.

O nosso Jornal da Beira assinala hoje 100 anos.

Enquanto director da Fundação Jornal da Beira, que tutela este nosso jornal semanário da Diocese de Viseu, sinto – na envolvência da grande responsabilidade – um profundo júbilo por esta efeméride. 100 anos, de facto, não são 100 dias. Muitos parabéns a todos os feitores, bem-feitores e concretizadores do Jornal da Beira. Urge saudar e felicitar – e neles todos os outros – o Senhor Bispo de Viseu, D. António Luciano e o director do Jornal Padre Nuno Azevedo. 

Há 100 anos atrás era Presidente da República Portuguesa António José de Almeida; Liberato Pinto (quem se recordará deste nome?) era o Primeiro-ministro; D. António Alves Ferreira era Bispo de Viseu e Sua Santidade Bento XV era o Papa. O director do Jornal da Beira – o seu primeiro director – era o Cónego José de Almeida Correia.

O tempo era de confronto militante. As tensões entre a tradição e a sua ruptura continuavam ao rubro. O positivismo, o socialismo e o triunfante bolchevismo – e também os seus opostos – não só sobreviveram à primeira Grande Guerra, como também criaram mentalidade e teia de poder. A pneumónica e a tuberculose, há 100 anos também – que certeira e triste cronologia esta! – fizeram os seus irreparáveis danos e, obviamente, deixaram bem impressa a sua peculiar e alarmante presença. A resposta a tantos desafios, localmente e globalmente, não foi certamente a inércia.

Perdoam-me a referência muito localmente pátria mas… foi também há 100 anos que, no alto do Caramulo, se criou uma Estância Sanatorial – que alcançaria fama e crédito mundial – para fazer face à pandemia da tuberculose.

Para fazer face ao dever de informar bem… nasceu, na Diocese de Viseu e na sequência imediata de outros ensaios, o Jornal da Beira.

Regresso à experiência muito pessoal e termino. 

No tempo em que vivi e estudei em Roma… passei centenas de vezes pela estátua e largo do Pasquino. Também porque ali ao lado um restaurante cativava a atenção, devo dizer! Junto à estátua – estátua mutilada datada do século III antes de Cristo – os romanos habituaram-se a deixar notícias – sempre satíricas – concernente a tudo e a todos. Nem o Papa escapava à piada ou, pior, à piadola. Tão longe ou baixo se chegava… que, Pasquino, deu origem a… pasquim…

Nestes tempos que são os nossos – paradoxalmente – os pasquins proliferam. Não só nas chamadas redes sociais, mas também – é público e manifesto – nas televisões, rádios, jornais, revistas e outros… O pasquim é sempre refém. Refém de tudo o que possa ser mais soez, refém de verborreias irreflectidas, mas também… e é trágico… refém de interesses e poderes que – pela força do poder da informação e da comunicação – manipulam consciências, conhecimentos, verdades e vontades.

Não é necessário – esperemos – um grande exercício especulativo para verificarmos o “nível pasquim” que, todos os dias e horas, prolifera na nossa realidade.

O meu voto? É simples. Que o Jornal da Beira – ilustre Centenário – nunca seja um pasquim. Nunca o será certamente.

Que, na fidelidade à sua memória e à sua essência, tenha a coragem de concretizar o seu projecto. Este, sempre inspirado e fundamentado no Evangelho, não pode ser outro: informar e formar, com a única forma da verdade e do bem.

Muitos parabéns e longa vida ao nosso Jota Bê! 

Padre Luís Miguel Figueira da Costa | Diretor da Fundação Jornal da Beira

 

9 de janeiro de 1921.

Parece tão distante, mas hoje tão presente, num ideal que se mantém nestes 100 anos de publicação, neste Jornal que continua a ser voz da Diocese de Viseu, ponto de ligação e referência para tantos dos seus leitores e assinantes.

Citando D. António Luciano, na sua última mensagem de parabéns, na última edição: “um bem de todos e para todos”. Sim, um bem, que nunca pode deixar de ter presente esse bem, de servir em nome desse bem, de todos e para todos. Como o tem procurado ser ao longo destes 100 anos.

Ser hoje um jornal centenário, o mais antigo deste região, torna-se motivo de uma alegria sem igual, alegria que recorda cada um dos que passaram por esta “casa aberta de todos e para todos”, como o Jornal sempre procurou ser. Recordar cada um dos seus diretores, colaboradores, trabalhadores, de todos os que, muitas vezes à custa do seu próprio esforço pessoal, com os poucos meios possíveis, faziam “acontecer” cada edição. Recordar essa sua alegria, cada semana, ao longo destes 100 anos. Uma alegria que queremos prolongar, também nós daqui em diante, em cada semana, em cada edição.

Mas, ser um jornal centenário é também motivo de uma grande responsabilidade, herdada mas aceite naturalmente como nossa, de continuar esta história, de “o fazer acontecer” em cada edição deste jornal, em cada semana em que os leitores o folheiam com entusiasmo, em que procuram cada uma das suas palavras, das suas imagens, em cada notícia veiculada com todo o rigor, sempre procurando informar e também formar, como sempre esteve presente neste semanário regionalista.

Permiti que recorde as palavras do seu diretor, José d’Almeida Correia, no primeiro número de Jornal da Beira, a 9 de janeiro de 1921, traçando o caminho para esta publicação, ao longo destes 100 anos: “Jornal francamente católico e nacionalista, o Jornal da Beira juntará a defesa religiosa à defesa dos grandes interesses nacionais; nenhuma questão de interesse local ou nacional lhe será estranha; sobre toda elas procurará fazer luz, criar opinião, guiando-se apenas pelos superiores interesses da região ou do país”. Recordava também a sua definição para este Jornal: “o nosso jornal, alem da sua feição doutrinária, de propaganda abertamente católica, terá um caracter acentuadamente regionalista, será verdadeiramente o Jornal da Beira”.

Palavras de há 100 anos, que continuam, no entanto, atuais em Jornal da Beira. 

E se o seu primeiro diretor fazia logo alusão às dificuldades a vencer, ao ano difícil, 1921, em que esta história começava, hoje, 100 anos depois, mesmo em ambiente de comemoração, a possível neste ano difícil de 2021, saibamos fazer frente às dificuldades que surgem e surgirão, mesmo perante o crescente desinteresse na leitura ou as dificuldades da imprensa na atualidade, e digamos também: “nós cremos”, “nós acreditamos”.

Por fim, os agradecimentos a todos, que não farei aqui em palavras, mas que todos sentirão no seu coração, assim o espero, em cada nova edição deste “nosso”, sim “nosso” Jornal da Beira…

Padre Nuno Azevedo | Diretor do Jornal da Beira

 

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