Centenário JB

Intervenção do director da Fundação Jornal da Beira nos 99 anos do Jornal

09 de Janeiro de 2020, 17h, Casa Episcopal de Viseu

A vida é feita de circunstâncias jubilosas. Esta é uma delas. O semanário da nossa Diocese de Viseu, o Jornal da Beira, completa hoje 99 anos e, cheio de entusiasmo, projecta-se para o iminente e eminente Centenário. É também com pessoal e profunda alegria, sendo o terceiro director da Fundação Jornal da Beira, depois dos Reverendos e Ilustres Monsenhor José Vieira e Padre João Martins, que vos dou a todos as boas vindas, saudando-vos com plena amizade e reconhecimento.

Esta é uma palavra necessariamente breve. E ainda bem que assim é. Palavra que é, acima de tudo, de acção de graças pelo venerável caminho percorrido. Acção de graças a Deus, sempre, e também a uma grande família que fez e faz o Jornal da Beira. Gratidão que assume com orgulho o passado e o presente, na consciência humilde e sã dos limites e imperfeições, mas também, em presente e futuro, a responsabilidade por ser e fazer mais e melhor. E são tantos e tão grandes os desafios! E o mais importante é, creio eu, a fidelidade. Fidelidade à alma e ao corpo deste Jornal. Eu diria que a sua alma é a Boa Nova do Evangelho e que o seu corpo, em uníssono com a alma, é a missão de transmitir bem, com ética e com excelência, as novas – e que desejavelmente sejam boas! – desta nossa terra e deste nosso mundo. Para isso, e por isso, ao serviço deste especial corpo e alma, está a memória, a identidade, a missão, os meios, os desafios, as surpresas, e, acima e tudo, as pessoas e o coração em Deus.

Ao longo desde ano procuraremos concretizar algumas iniciativas visando a memória do centenário. Não as elencarei aqui… Umas serão mais visíveis e mediáticas… outras, não menos importantes, mais discretas e silenciosas. Cumpre-me agradecer muito o precioso serviço da Comissão constituída para o efeito.

Ainda há pouco, falando ao semanário Expresso, o meu preclaro amigo Cardeal José Tolentino de Mendonça dizia que “a redacção (de um jornal, entenda-se) é um instrumento humano, uma espécie de telescópio, de instrumento técnico de procura da verdade, de procura de chegar ao coração do homem. É uma coisa maior do que os seus componentes.” Subscrevo inteiramente… e também a dimensão aberta, e lúcida, de sabermos que não comunicamos apenas para crentes. Acrescentaria eu, assim me atrevo, à imagem do telescópio a imagem do microscópio. O trabalho do Jornal da Beira há-de ser assim minucioso, cuidadoso, em cada palavra, letra, pontuação, imagem e ideia. Mas… como em tudo no meio estará a virtude. O caminho do Jornal da Beira balançará de forma harmoniosa, rítmica e criativa, entre o telescópio e o microscópio. Ou seja… o desafio está na correcta focagem.

É interessante como podemos fazer remontar o termo “focar”! É interessante e pertinente. A mitologia grega viu o Titã Prometeu como criador dos mortais humanos. Acreditavam que os moldou a partir do barro. Contudo, ao contrário dos animais, os humanos não eram providos de especiais meios de defesa. Prometeu decide roubar o fogo aos deuses (focar vem de fogo, não esqueçamos!) e dá-lo aos humanos. Tudo parecia bem… no entanto, os deuses decidem vingar-se deste grave furto; o fogo, afinal, era privilégio divino e não podia ser dado aos simples mortais. Prometeu é aprisionado e uma águia devora-lhe continuamente o fígado… que diariamente se regenera… para voltar a ser devorado… E outro castigo, mais grave ainda, é engendrado: os deuses confiam a Pandora uma caixa bem fechada que, para bem dos humanos, não deve ser aberta. No entanto, curiosidade feminina – felina também? – não resiste! Pandora abre a caixa e, todos os males que nela estão contidos, saem para afligir e torturar os humanos. Pandora, perante tal tragédia, consegue ainda fechar a caixa. Dentro da caixa restou apenas uma maldição que não saiu para a humanidade: a falta de esperança! A esperança é este fogo divino, pleno de humanidade e de imortalidade, que nada nem ninguém nos pode tirar. Nós, os cristãos, bem sabemos quem é este Fogo Divino… Ele que nos desafia a ser luz e calor no que somos e fazemos.

Permito citar o que escrevi nos 95 anos do Jornal da Beira. Citarmo-nos a nós mesmos talvez não seja muito correcto… mas, como sou do Caramulo, a porção mais elevada em altitude da nossa Diocese, permito-me estas altivas liberdades! Escrevi: “As comemorações, como exercícios vivos da memória, longe de esclerosar ideias, vontades e meios, permitem – podem permitir – um relançamento de criatividade como caminho de continuidade. Um caminho que se percorre com gratidão e reconhecimento por tudo o que se foi e é, por tudo o que se fez e faz; que se percorre com esperança e audácia por tudo o que poderá vir a ser e a fazer o Jornal da Beira do futuro. É um caminho feito de conjugação de bom trabalho e boa vontade, de sinergia como agora sói dizer-se, já que da ajuda de Deus não se duvida.

A todos desejo um 2020 pleno da luz e do calor da esperança… o mesmo que desejo, vivamente, ardentemente, de todo o coração, ao nosso querido Jornal da Beira. Disse.

Padre Luís Miguel Figueira da Costa, Director da Fundação Jornal da Beira

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