Centenário JB

Leonídio Mendonça aprendeu a arte de impressor aos 13 anos

NA HISTÓRIA DO JORNAL DA BEIRA...

Leonídio Mendonça, impressor de tipografia, 65 anos, 39 passados a trabalhar no Jornal da Beira. Lembra- -se do dia em que entrou pela mão do irmão mais velho que já lá trabalhava: “Entrei em junho de 1968 com 13 anos, mas só em fevereiro de 69 é que me inscreveram na Segurança Social, no ano em que fazia 14 anos”.

A paixão pela arte da tipografia nasceu mais tarde. Numa altura em que a maioria dos portugueses terminava a quarta classe e o caminho seguinte era procurar emprego, para Leonídio Mendonça o ordenado falou mais alto. “Com 13 anos ainda não sabemos o que queremos, portanto, encontrei uma “alavanca” na vida, porque na altura a tipografia era das artes mais bem pagas que havia. Primeiro fui trabalhar para um talho durante dois anos onde ganhava 100 escudos por mês, depois para o Jornal da Beira fui ganhar mais do dobro, duzentos e tal escudos”.

“Foi uma escola”. Tomou-lhe o gosto e, apesar do part-time que arranjou a servir casamentos e batizados, nunca mais se viu a fazer outra coisa, de tal forma que, em 2007, quando fechou a tipografia do Jornal da Beira abriu o seu próprio negócio juntamente com um colega, porque levavam “conhecimento, amizade e clientes”.

Em ano comemorativo, o novelo das memórias de quase 100 anos do Jornal da Beira vai-se desenrolando à medida que vamos conversando com antigos colaboradores do projeto. Os sentimentos e as recordações vão variando, mas a saudade é a mesma. “Houve mais coisas boas que más, embora haja sempre coisas menos boas, mas o que mais recordo é a camaradagem que havia entre nós e a honestidade que agora não existe”, responde ao lembrar-se dos “convívios”, dos “magustos” e da equipa que tanto compunha uma notícia como dobrava jornais: “fazíamos tudo, porque não eramos assim tantos e nada podia parar”.

Leonídio Mendonça é do tempo em que o Jornal da Beira tinha um correspondente por freguesia no concelho de Viseu – rubrica ‘Por Terras da Nossa Terra’ – e ainda se alargava aos concelhos de Lafões, Tondela e outros.

Assistiu aos 50 anos do projeto Jornal da Beira comemorados com “uma Missa na Sé e com uma fotografia de grupo” no Adro da Catedral. “Sempre tive na memória essa esperança de poder estar nos 100 anos do jornal, se bem que quando fechou a tipografia isso deixou-me renitente”, admite. Quando fala em saudade lembra muitos colegas e lança nomes como o “professor Reinaldo”, o jornalista Rodrigues Bispo, o “senhor Padre Vieira” do “senhor Cónego Celso”, o “senhor Cónego Lino”… “Lembro-me e tenho muitas saudades do diretor, o Cónego Henriques Mouta, era um homem de uma personalidade incrível e com grande respeito pelas pessoas”, remata o antigo impressor ao reforçar a “camaradagem que vinha de cima”.

Hoje, mais otimista, acredita que os jornais em papel vão continuar nos próximos anos, apesar de se surpreender todos os dias com a revolução tecnológica desde o tempo em que começou na composição Manual: “Naquele tempo, todos os tipógrafos que entravam numa tipografia a primeira coisa que faziam era aprender a caixa”, ou seja, decorar o lugar de mais de uma centena de letras.

Emília Amaral  |  edição impressa 13/02/2020

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