Centenário JB

Luís Saraiva: “fazia o jornal do princípio ao fim”

NA HISTÓRIA DO JORNAL DA BEIRA...

Ainda miúdo, saía da escola do Magistério Primário (hoje Escola Superior de Educação de Viseu), atravessava a rua e ia ter com o pai à tipografia do Jornal da Beira onde trabalhava como compositor. Aos 18 anos, quando terminou o ensino secundário, foi levado pelo próprio pai para trabalhar num lugar que já não lhe era desconhecido.

“Gostava do cheiro das tintas, do barulho das máquinas, de todo aquele processo de fazer o jornal até chegar aos correios”, recorda Luís Saraiva, colaborador do centenário Jornal da beira durante 11 anos. 

A intensidade com que hoje se vive a vida quase não deixa espaço para parar e ‘tertuliar’ momentos que são marcantes num determinado ciclo. E, um homem de poucas palavras mais habituado ao trabalho de tipografia e aos computadores, assume que além de adquirir conhecimentos no setor gráfico, fez “tanta coisa” que hoje é difícil resumir num quarto de página de uma folha de jornal. Mas de repente eis que tudo se aviva e, afinal, a sua vida gira hoje um pouco em torno do que foi conquistando em 11 anos no Jornal da Beira. “Então, foi lá que conheci a minha mulher”, sorri, ao recordar que foi no Jornal da Beira que conheceu a mulher por quem se apaixonou e mais tarde casou, que conheceu aquele que é hoje o seu sócio, onde fez muitos amigos e aprendeu o que é o espírito de equipa.

O mais jovem ex-colaborador do Jornal da Beira, hoje com 45 anos, saiu aos 29 anos, mas em 11 de trabalho tem, como todos, muitas memórias gravadas. “Nem tudo foi bom, parti dois dedos numa máquina e por sorte não fiquei sem a mão, fiquei um pouco triste quando tive de me afastar para ir para a tropa, embora recebesse lá o jornal todas as semanas pelo correio e, felizmente, voltei passados quatro meses”, lembra.

Dos momentos gravados na memória que Luís Saraiva confessa ter saudades, e do qual facilmente consegue traduzir a imagem em gestos e em palavras, é mesmo do “dia de fecho” da edição, termo ainda hoje usado pelos periódicos. “Trabalhávamos em secções diferentes (livraria, tipografia, redação e fábrica das hóstias), mas nesse dia, ao final da manhã, juntávamo-nos todos no armazém para dobrar o jornal e despachá-lo nos correios”, resume. Dobrar o jornal era um processo mais complicado do que aquilo que a palavra significa. Em cadeia, uns dobravam, outros intercalavam as páginas, outros cintavam o jornal, outros faziam os molhos e, finalmente, era escalado um da equipa para levar a edição semanal ao correio. Tudo isto num tempo em que o número de páginas do jornal variava de semana para semana, em que se chegava a trabalhar à noite para “o jornal sair a horas”, em que o jornal tinha muitos anúncios produzidos na própria tipografia, tinha várias secções e milhares de assinantes.

Luís Saraiva lembra-se de uma equipa maior, porque o trabalho na tipografia (hoje extinta) assim o exigia, tem lembranças “da revisão de provas com o senhor Monteiro”, com o Leonídio (hoje sócio) e com o pai.  Da redação relata “a distância” com a equipa da tipografia em que mal se cruzavam, num tempo em que figuras como Reinaldo Cardoso, Rodrigues Bispo, o Padre António Matos e o Monsenhor José Vieira (diretor) asseguravam a escrita dos textos.

“Toda a gente conhecia o Jornal da Beira”, remata Luís Saraiva, reconhecendo o seu papel na comunidade de então que, sendo um semanário da Diocese de Viseu, dava importância ao desporto, à atividade da Diocese, da Igreja, ao obituário, em que “já na altura toda a gente gostava de saber quem morreu”, e ao número elevado de anúncios.

Emília Amaral  |  edição impressa 12/03/2020

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