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Opinião: Jornal de papel na era digital: ainda faz sentido?

Na tentativa de procurar responder à questão que surge no contexto da imprensa escrita, nomeadamente a regional, ‘se ainda faz sentido o jornal em papel?’, entendemos que, por enquanto, não existem provas concretas de que a migração para o digital seja uma mais-valia. A sintonia dos dois meios, numa época de transição pode ser o caminho possível para os jornais, que já não servirão unicamente para informar. Com uma apelativa rede de conteúdos constantemente online, os jornais procuram outros caminhos de sobrevivência sem esquecer, obviamente o fundamento primário de informar. Outras fontes de financiamento devem ser identificadas, fontes que vão além das receitas de publicidade, tais como a promoção de iniciativas ou venda de produtos associados à cultura. A escritora americana Clay Shirky numa coluna assinada no The Guardian , com o título: Stop press – and then what? clarifica a problemática da seguinte forma: “The traditional print media can’t survive the impact of the Internet. But society doesn’t need newspapers, it needs journalism”. Ou seja, uma das estratégias para fazer face à crise da venda dos jornais em papel, parece apontar para um subjacente aumento da qualidade jornalística, afastando a dependência das receitas de publicidade. Contudo, verificámos que um jornal francês, que surgiu em 2018, sob o mote, “Cent pages et sans publicite”, sobreviveu três meses nas bancas. 

Com a discussão em voga da crise do jornalismo e procedente ameaça às democracias, a discussão sobre o papel que imperou no ano de 2012, na imprensa estrangeira, parece ter sido remetida para segundo plano. Mas não podemos esquecer que foi no recente verão de 2018 que o jornal fundado em 1864, o Diário de Notícias, migrou para o digital, deixando a impressão em papel para um único dia da semana, vendido em banca, aos sábados. Mas eis, que há poucos dias, mais concretamente no 156.º aniversário do Diário de Notícias (a 29 de dezembro), regressou às edições diárias, em papel, o jornal português de âmbito nacional mais antigo. A nível regional, em 2018, praticamente um mês depois do anúncio do DN, o semanário ‘O Ribatejo’, editado em Santarém desde 1985, saiu no dia 13 de julho de 2018, pela última vez em formato impresso, e com a promessa de manter a edição online. O diretor do jornal e seu administrador, Joaquim Duarte, despediu-se dos leitores, justificando que “as notícias no papel envelhecem antes de chegarem ao leitor”. Mas a promessa de ficar no digital acabou por se esvanecer no tempo, não sendo possível encontrar, numa rápida pesquisa online, o título regional do semanário “O Ribatejo”.

Um jornal com menos papel ou sem papel de todo, não implica que seja um jornal com inferior qualidade. A criatividade e o talento do jornalista falarão mais alto (Dines, 1974). No entanto, a qualidade não sobreviverá num ambiente de precariedade, com instabilidade e salários baixos. Mais do que a crise do papel, existem outras crises que afetam o setor, como o desprestígio conferido à profissão de jornalista, que na sua mais elementar razão de ser, evoca a necessidade de uma profunda reflexão sobre este tempo de mudança. 

A informação é agora um serviço público, por mais que seja uma mercadoria, deve ser pensado da mesma forma que educação e saúde” (Collis, Olson & Furey, 2009, p.11).  A 27 de novembro de 2018, na cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta 2017, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou existir uma “situação de emergência” nos meios de comunicação social portugueses que “já constitui um problema democrático e de regime”.

Um problema, uma mudança, uma crise, várias crises, onde fica evidente que o problema não é o papel. O papel ainda faz sentido num jornalismo com sentido. Não é por isso de estranhar a luta que a API (Associação Portuguesa de Imprensa) tem travado pela promoção do património dos jornais centenários portugueses, definindo o país como um caso raro no mundo, com cerca de 40 jornais centenários, dos quais apenas dois, são de tiragem nacional. Não me atrevo por isso a anunciar o fim de nada…nem do papel, nem muito menos da imprensa regional. Aliás, esta última será cada vez mais o futuro.

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