Igreja

Proposta de Celebração Familiar para a vivência do 4º domingo da Quaresma

A Liturgia da Palavra deste quarto domingo da Quaresma propõe-nos o tema da luz, depois de no passado domingo nos termos deixado banhar, com a samaritana, na fonte de água viva que é Cristo – água que regenera e salva, como nos lembra a segunda leitura. A cegueira fazia parte na lista das doenças que, na religião judaica, correspondia a um castigo de Deus devido ao pecado. Do próprio ou de um antepassado seu, que Deus não era para brincadeiras e castigava “os filhos pelo pecado dos pais até à terceira ou quarta geração” (cf. Dt 5, 9). Por isso um dos sinais do Messias seria a cura dos cegos, e faz parte do “cartão de apresentação” de Jesus ao pedido de João Baptista.

Introdução

Pai/Mãe – Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Todos – Ámen!

Pai/Mãe – Hoje, Jesus encontra-se com o cego de nascença. A cura deste homem revela-nos Cristo como o Messias e faz-nos descobrir o caminho que somos chamados a percorrer para chegar ao encontro pessoal com a Luz do Mundo. Aqueles que acolhem Cristo têm a “luz da vida”. O velho homem, perdido na escuridão de um mundo sem graça e sem cor, regressa, da água, com os olhos abertos e a ver, mesmo sem saber como! Iluminados pelo Baptismo, comecemos por nos deixar olhar por Cristo, reconhecendo o pecado que há em nós. 

Pedimos perdão

Filho/a – Senhor, sou eu aquele cego desnorteado, percorrendo o caminho errado;

Todos – Senhor, tende piedade de nós 

Filho/a – Cristo, sou eu aquele cego, que só vejo o meu lado!

Todos – Cristo, tende piedade de nós

Filho/a – Senhor, sou eu aquele cego, que se julga sem sombra de pecado! 

Todos – Senhor, tende piedade de nós

Escutamos a Palavra

Pai/Mãe – Vamos todos dar muita atenção ao texto do Evangelho deste Domingo.

Leitor 1: Narrador (Pai/Mãe)

Leitor 2: Jesus (Pai/Mãe) 

Leitor 3: Cego (Filho/a)

Leitor 4: Outros Filho/a

Leitor 1 – O Senhor esteja convosco!

Todos – Ele está no meio de nós!

Leitor 1 – Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Todos – Glória a Vós, Senhor!

Leitor 1 – Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Os discípulos perguntaram-Lhe: 

Leitor – «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?». 

Narrador – Jesus respondeu-lhes: 

Leitor 2 – «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus. É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo». 

Leitor 1 – Dito isto, cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: 

Leitor 2 – «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; 

Leitor 1 – Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver. 

Leitor 1 – Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: 

Leitor 4 – «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?». 

Leitor 1 – Uns diziam: 

Leitor 4 – «É ele». 

Leitor 1 – Outros afirmavam: 

Leitor 4 – «Não é. É parecido com ele». 

Leitor 1 – Mas ele próprio dizia: 

Leitor 3 – «Sou eu». 

Leitor 1 – Perguntaram-lhe então: 

Leitor 4 – «Como foi que se abriram os teus olhos?». 

Leitor 1 – Ele respondeu: 

Leitor 3 – «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver». 

Leitor 1 – Perguntaram-lhe ainda: 

Leitor 4 – «Onde está Ele?». 

Leitor 1 – O homem respondeu: 

Leitor 3 – «Não sei». 

Leitor 1 – Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: 

Leitor 3 – «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». 

Leitor 1 – Diziam alguns dos fariseus: 

Leitor 4 – «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». 

Leitor 1 – Outros observavam: 

Leitor 4 – «Como pode um pecador fazer tais milagres?». 

Leitor 1 – E havia desacordo entre eles. Perguntaram então novamente ao cego: 

Leitor 4 – «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?». 

Leitor 1 – O homem respondeu: 

Leitor 3 – «É um profeta». 

Leitor 1 – Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver. Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: 

Leitor 2 – «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?». 

Leitor 1 – Os pais responderam: 

Leitor – «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 

Leitor 1 – Foi por medo que eles deram esta resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem reconhecesse que Jesus era o Messias. Por isso é que disseram: 

Leitor 4 – «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 

Leitor 1 – Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido cego e disseram-lhe: 

Leitor 4 – «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é pecador». 

Leitor 1 – Ele respondeu: 

Leitor 3 – «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo». 

Leitor 1 – Perguntaram-lhe então: 

Leitor 4 – «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?». 

Leitor 1 – O homem replicou: 

Leitor 3 – «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?». 

Leitor – Então insultaram-no e disseram-lhe:

Leitor 4 – «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés. Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas este, nem sabemos de onde é». 

Leitor 1 – O homem respondeu-lhes: 

Leitor 3 – «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer». 

Leitor 1 – Replicaram-lhe então eles: 

Leitor 4 – «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?». 

Leitor 1 – E expulsaram-no. 

Leitor 1 – Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: 

Leitor 2 – «Tu acreditas no Filho do homem?»

Leitor 1 – Ele respondeu-Lhe: 

Leitor 3 – «Quem é, Senhor, para que eu acredite n’Ele?».

Leitor 1 – Disse-lhe Jesus: 

Leitor 2 – «Já O viste: é quem está a falar contigo». 

Leitor 1 – O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: 

Leitor 3 – «Eu creio, Senhor». 

Leitor 1 – Então Jesus disse: 

Leitor 2 – «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não vêem ficarão a ver; os que vêem ficarão cegos». 

Leitor 1 – Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe: 

Leitor 4 – «Nós também somos cegos?». 

Leitor 1 – Respondeu-lhes Jesus: 

Leitor 2 – «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece».

Leitor 1 – Palavra da salvação. 

Todos- Glória a Vós, Senhor!

Partilhamos a Palavra

Pai/Mãe – Há uns anos, um sacerdote, o Pe. Vítor Gonçalves, escreveu uma Carta ao cego de nascença que passou a ver. Escrevia ele:

 Amigo dos olhos abertos!

Não sei como te chamar porque não nos chegou o teu nome, mas o evangelista João deixou-nos um retrato teu que impressiona sempre que o escuto e ficou-me uma vontade de te escrever. Ao contrário de outros cegos dos evangelhos parece que não pediste nenhum milagre a Jesus. Não gritaste nem se ouviu a tua voz. Talvez nem tivesses ouvido falar dele. De facto, foi Jesus que te encontrou no caminho e depois de tentar libertar as mentes dos discípulos do preconceito de que a doença e o sofrimento eram castigo dos pecados, pôs-te “na berlinda”. Deves ter ficado surpreendido com aquele lodo feito de saliva e terra que Ele te pôs nos olhos e com a ordem para te ires lavar à piscina de Siloé. E foste, e ainda bem que foste! 

Gostava tanto de te ouvir contar como foi o teu abrir de olhos e começares a ver! Sabes, às vezes, andamos com os olhos desfocados ou cheios de escamas que já nem nos maravilhamos com o dom de ver. Como se andássemos doentes dos olhos e só vemos o que é feio, o mal dos outros e do mundo, a escuridão. Imagino o teu olhar como o das crianças, encantado com tudo, maravilhado com o insignificante e com o grandioso, espantado quando viste o teu rosto pela primeira vez e o daqueles que só conhecias pela voz, pelas mãos. Estavas a nascer de novo!

E como isso te transformou. Já não fazia sentido pedir esmola, mas era preciso dizer que eras o mesmo e também outro. No meio de acesa polémica foste questionado, levado aos fariseus, quiseram manipular-te, insultaram-te, mas foi crescendo em ti uma voz, uma coragem para até ironizar com os que te julgavam. Não aceitavam que tivesses nascido “inteiramente em pecado” e estivesses a ensiná-los! Continuamos a ter dificuldade em acolher as surpresas de Deus. É tão fácil espalhar o preconceito e viver em condomínios fechados do pensamento. Julgamos ver melhor e talvez estejamos cegos para o essencial. Mas também há modos refinados de prolongar “cegueiras”, de esconder verdades, de manipular pessoas e multidões. Na política, na economia e até na fé há “sábados” intocáveis de inércia e acomodamento, de poderes apetecíveis, de tradições vazias, de injustiças prolongadas. Continua a ser verdade: “o pior cego é aquele que não quer ver”.   

Mas foi o olhar de Jesus que mais te impressionou, não foi? Há uma canção brasileira que diz assim “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem-se encontrar…”. Ver e acreditar foi um enorme passo. Como se transformou o teu caminho? Como se transformam os nossos que também acreditamos em Jesus? Pode ver-se nos nossos olhos a luz que passou a habitar os teus? Obrigado pela tua paciência em me leres.

Um abraço a Jesus e vemo-nos por aí!

Dar a possibilidade a que os membros da família possam partilhar sobre o que para eles significa o episódio do cego de nascença e esta carta do Pe. Vítor. Poderá até ser interessante que cada um possa, igualmente, escrever uma carta ao cego de nascença ou fazer um desenho e, depois, poderem partilhar em família.

Preces

Pai/Mãe – Não basta ter olhos e olhar. É preciso ver com profundidade, com fé. É preciso ter uns olhos novos para a realidade ao jeito de quem tem fé e segue Jesus de todo o coração.

Filho/Filha – Dá-nos, Senhor, uns olhos de fé para acreditarmos em Deus e no seu enviado, Jesus Cristo. A vida iluminada com a luz da fé toma outra cor. 

Todos – Iluminai, Senhor, o nosso coração.

Filho/Filha – Dá-nos, Senhor, uns olhos de amor para vermos em cada pessoa um irmão amigo a amar e a servir. A vida vivida, amando e servindo, será mais alegre.

Todos – Iluminai, Senhor, o nosso coração.

Filho/Filha – Dá-nos, Senhor, uns olhos alegres para manifestarmos a alegria de sermos Igreja, de sermos cristãos. É este o melhor testemunho que podemos dar.

Todos – Iluminai, Senhor, o nosso coração.

Filho/Filha – Dá-nos, Senhor, uns olhos de sonhador para sonhar com um mundo onde os direitos humanos são respeitados. Uma vida empenhada em fazer do sonho realidade.

Todos – Iluminai, Senhor, o nosso coração.

Filho/Filha – Dá-nos, Senhor, uns olhos novos para olhar para a beleza de um pôr do Sol, duma flor e de tudo o que de belo existe. Ver com o coração tudo o que de bom e de belo existe no mundo.

Todos – Iluminai, Senhor, o nosso coração. 

Todos – Pai-nosso…

Ação de Graças

Filho/Filha – Eu sou a luz do mundo.

Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.

Eu vim para iluminar os que viviam nas trevas e nas sombras da morte.

Silêncio

Filho/Filha – Vós sois a luz do mundo.

Brilhem as vossas boas obras diante dos homens.

Ao verem as vossas boas obras, glorificarão o vosso Pai que está nos Céus.

Pai/Mãe – O cego que escolhe a “luz” e que adere incondicionalmente a Jesus e à sua proposta libertadora é o modelo que nos é proposto. A Palavra de Deus convida-nos, neste tempo de Quaresma, a um processo de renovação que nos leve a deixar tudo o que nos escraviza, nos aliena, nos oprime – no fundo, tudo o que impede que brilhe em nós a “luz” de Deus e que impede a nossa plena realização.

Para que a celebração da ressurreição – na manhã de Páscoa – signifique algo, é preciso realizarmos esta caminhada quaresmal e renascermos, feitos Homens Novos, que vivem na “luz” e que dão testemunho da “luz”.

Bendigamos ao Senhor.

Todos – Graças a Deus.

Esta celebração foi preparada tendo por base, contributos dos Padres Amaro Gonçalo, Vítor Gonçalves e Pedrosa Ferreira.

edição impressa 19/03/2020

Mostrar mais

Artigos Relacionados

Back to top button