Centro histórico de Viseu prepara-se para a festa em honra de Nossa Senhora dos Remédios
‘Esta Capela he do povo que se fez à custa das esmolas dos devotos, anno de 1742’. A mensagem está cravada na porta de entrada da Capela de Nossa Senhora dos Remédios, situada no Largo Pintor Gata, em Viseu, noutros tempos chamada de ‘praça da erva’ por ser ali que se realizava o mercado dos frescos, onde a cidade fazia grande parte das compras, à terça-feira. No início do século XVIII, a devoção do povo reuniu esmolas suficientes para construir o espaço religioso.
Desde essa altura que nunca deixou de se celebrar o dia da padroeira na Capela de Nossa Senhora dos Remédios. Lucília Figueiredo é hoje a representante do povo que a fez nascer. Sem nada em troca, ao longo do ano preserva o património como se da sua casa se tratasse ao abrir e fechar as portas diariamente e tratar do espaço. Neste 8 de setembro, logo pela manhã, apoiada por outros devotos, dá vida ao Largo Pintor Gata com música e o andor enfeitado, transformando a praça em ambiente de romaria.
Para este ano, a festa está marcada para as 18h30, desta segunda-feira, data em que o calendário litúrgico celebra a Natividade da Virgem Maria, mas o povo também invoca Maria como Nossa Senhora dos Remédios. Da cerimónia desta tarde consta a celebração da Missa Campal pelo Cónego Manuel Matos, responsável pelo Cabido da Sé de Viseu, seguida de uma Procissão pela zona histórica.
Neste dia, publicamos para ler uma crónica do historiador viseense Alberto Correia – Porta do Soar. A História que de Longe Vem – do livro ‘Viseu. Urbanidades’, uma edição da Freguesia de Viseu que o Jornal da Beira tem vindo a publicar, que conta a história de um dos mais históricos recantos da cidade de Viseu antiga
“Porta do Soar. A História que de Longe Vem
A Porta do Soar, uma de entre as sete portas que se rasgavam no muralhado antigo da cidade levantado às ordens de D. Afonso V (século XV), abria sobre o Poente e, passos andados até ao velho Rossio de Massorim, ali se desdobrava em caminhos, um deles, principal, seguia até ao mar e por ele subiam carreteiros com lenhas, frutas e almocreves com odres de azeite e barricas de peixe que vinha de Aveiro e de outros portos de mar com os carregos de sal. Obedientes às leis do Concelho faziam descarga na Praça ora de D. Duarte que foi Rossio do Concelho cortando na Rua das Estalagens (ora Rua Grão Vasco) onde alguns se demoravam.
Por esta e outras portas entrava e saía gente e apenas se fechava em tempo de pestilência ou de guerra. Comprava-se e vendia-se no quotidiano mercado ou nas bancas armadas nas feiras de terça-feira. E era caminho para cumprir obrigações nos Paços do Concelho, para pagamento dos dízimos devidos à igreja ou as prestações impostas pela Coroa, tantas vezes.
E era o rodopio dos vizinhos no fervilhante quotidiano da urbe. Lavadeiras descendo às margens da Ribeira, mulheres na ida à fonte antes que a água tivesse subido às moradas. Soldados, abades, a criadagem da fidalguia, artesãos e lojistas que entravam de manhã para sair ao fim do dia. Viajantes e romeiros requerendo pousada por um dia, enxerga e manta, loja para abrigo da montada e mesa posta, pão e vinho, que lei era servir bem nas Estalagens. E a taberna que no tempo dos romanos já havia sido inventada era também lugar de abrigo, de encontro, ócio ou refeição. A tabuleta pintada ou o ramo de loureiro eram marca, na entrada.
Teve sorte, esta porta, como sorte teve a Porta dos Cavaleiros, de não ter sido mandada derribar pela Câmara em 1844, teve a sorte de permanecer inteira como ainda se mantém, cravada na face exterior, em 1646, a lápide que consagra o Reino a Nossa Senhora da Conceição e, mais alto, ostensivo, o real brasão.
Dentro da Praça recolhida que um dia foi Praça da Erva e hoje se diz Largo Pintor Gata, esse estranho apelido que tomou José de Almeida Furtado (1778-1831), se edificou a harmoniosa Capela de traça octogonal dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, benzida em 1749 e que foi construída com esmolas dos devotos como assinala a inscrição datada de 1742 no lintel da sua porta e doações da vizinha fidalguia do Solar dos Melos que exigiu abrir privada porta com acesso a uma tribuna.”



